terça-feira, 26 de abril de 2011

NAPOLEÃO E GEORGE WASHINGTON - uma boa crónica...

Mourinho conseguiu uma vitória enorme, Villas-Boas uma das grandes também. Foi uma semana em cheio para aqueles que um dia recordaremos como os dois maiores treinadores portugueses de sempre. Para nós, sportinguistas, é como se o fracasso continuasse a desfilar-nos à frente. Se desistir de Mourinho (obrigado, Juve Leo) marca o momento em que o Sporting decide deixar de ser grande, falhar a contratação de Villas-Boas (obrigado, Jorge Mendes) marca aquele em que o Sporting perde a oportunidade de voltar a tentar sê-lo.
E, no entanto, eu já não sei se Villas-Boas é de facto o segundo Mourinho, ou se Mourinho é que foi o primeiro Villas-Boas. Mourinho é um génio, mas Villas-Boas parece tocado pela graça divina. Mourinho joga um futebol de contenção, à procura da eficácia, Villas-Boas um futebol positivo, à procura da beleza (mas, ainda assim, eficaz). Onde Mourinho é agressivo e mesquinho, Villas-Boas é elegante e educado. Confrontados com uma pergunta difícil, Mourinho lança perdigotos e Villas-Boas articula ideias. É bem falante, Villas-Boas – ou estou errado?
Se Mourinho é Napoleão, Villas Boas é George Washington. Um é um cilindro compressor, o outro um Dona Elvira, belo e até um tanto dandy. Há entre Mourinho e Villas-Boas diferenças semelhantes às que separam a formiga da cigarra, com a ressalva de que, aqui, em ambos os casos o trabalho aparece feito (e bem feito). Parafraseando Arnaldo Jabor: Mourinho é sexo, Villas-Boas é poesia. Mourinho é o Special One? Então Villas-Boas não é o Special Two, não senhor: é o Really Special One. Ou talvez seja. O tempo não nos deixará na dúvida.
No fundo, o que parece é que Villas-Boas não tem de fazer um esforço tão grande. Ele dispõe da aura dos homens bem nascidos, muito mais do que do lastro das fortunas de oportunidade. É duro, mas ainda assim amável. É veemente, mas nunca truculento – e, aliás, nem sequer precisou de criar um estilo: uma gravata assenta-lhe bem. Ao pé de Villas-Boas, Mourinho parece Octávio Machado, rosnando. Demasiado datada, a analogia com Napoleão e Washington? Então cá vai: onde Mourinho é Putin, rabino e de dentes cerrados, Villas-Boas é Tony Blair, enorme e de sorriso aberto.
O FC Porto de Villas-Boas é mais forte do que o de Mourinho, e Villas-Boas tem extraído o melhor dele. O problema é que o Real Madrid de Mourinho é mais fraco do que o de Carlos Queiroz – e, ainda assim, parece uma equipa destinada a um lugar na história. Não me admiraria se Mourinho proferisse agora a frase: “Para o ano, tenho a certeza de que seremos campeões” – e depois efectivamente o fosse, apesar da Távola Redonda de Guardiola. Já Villas-Boas não dirá nada disso – e para o ano, de certeza, será campeão outra vez.
Para nós, na verdade, qualquer um servia e era um milagre. Tornámo-nos tão pequenos.
                                                                                                                                      CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo").
                                                                                                                                      Jornal de Notícias, 22 de Abril de 2011
                                                                                                                                      JOEL NETO

3 comentários:

  1. Hoje partilho convosco, uma crónica de Joel Neto, uma pessoa que admiro desde que escreveu a biografia do livro "José Mourinho, o vencedor", em 2004.
    Espero que gostem,assim como eu gostei

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  2. na minha opinião o Villas Boas poderá ter mais sucesso que o Mourinho, para isso tem de ter ajuda dos resultados, e a vitória na Liga Europa será decisiva. ainda é muito novo e tem muita qualidade

    CN

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  3. tenho seguido as cronicas deste senhor, e so tem um problema, ser sportinguista :) mas é muito correto nas suas análises

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